Além do bê-á-bá
As empresas de construção civil passam a oferecer cursos profissionalizantes a seus empregados para
enfrentar a carência de mão de obra
A
cena de profissionais da construção civil sentados em bancos escolares, em
pleno canteiro de obras, não pode mais ser considerada algo inusitado. Afinal,
muitas construtoras oferecem esse benefício há tempos, como forma de
alfabetizar os seus empregados. Mas ensinar as primeiras letras já não é mais
suficiente. Com a carência de mão de obra do setor, a regra agora é oferecer
cursos profissionalizantes. "Além da educação básica, passamos a ensinar
tarefas de marcenaria, carpintaria e hidráulica", afirma Juan Quirós,
presidente do grupo paulista Advento, que fatura mais de R$ 1 bilhão com quatro
construtoras, entre elas a Serpal Engenharia, que realiza o projeto. Lançado há
um ano e meio, o projeto, que está sendo desenvolvido em dez obras da Serpal,
deverá treinar dois mil funcionários e consumir investimentos de R$ 2,8 milhões
até junho de 2012.
A
aposta em cursos profissionalizantes não se justifica apenas em razão da
carência de mão de obra. Com o avanço tecnológico e novas técnicas de
construção, há uma necessidade natural de que as equipes estejam preparadas
para lidar com metodologias e equipamentos mais modernos utilizados nas
construções.
Uma
das empresas que saíram na frente na educação de seus profissionais foi a
Racional Engenharia, construtora paulista especializada em grandes projetos
privados, com faturamento de R$ 800 milhões no ano passado. Em 1987, a
construtora percebeu que a maior parte dos funcionários de suas obras não
conseguia escrever cartas para a família, fator que levava a certa desmotivação.
Agora, a companhia passou a oferecer aulas de informática e cursos
profissionalizantes para mestres-de-obras e de pedreiros. Em cinco anos, a
Racional já investiu R$ 1 milhão nesses treinamentos. "Programas com visão
mais abrangente, como o nosso, proporcionam o desenvolvimento do funcionário,
pois não se limitam à educação básica", diz Newton Simões, presidente da
Racional.
Os
cursos profissionalizantes costumam formar carpinteiros, pedreiros,
encanadores, pintores, além de outros especialistas em atividades necessárias
nas obras. A construtora mineira MRV, com foco em construções, e receita
líquida de R$ 3 bilhões em 2010, é outro exemplo. Mas em vez de levar os
professores para o canteiro de obras, a companhia está construindo duas
escolas, em Porto Alegre e Salvador, em parceria com as prefeituras locais.
Sérgio Lavarini, diretor de relações institucionais da empresa, afirma que uma
turma de 125 profissionais se formou em julho como azulejistas e eletricistas.
As
construtoras, com o esforço de alfabetizar e formar seus profissionais, já
estão colhendo resultados. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e
Emprego, a participação de trabalhadores analfabetos na construção civil caiu
19% entre 2006 e 2010.
No ano passado, eles representavam 0,99% de um
contingente de 2,6 milhões de trabalhadores.
Há quatro anos, eram 1,18%.
"As ações da iniciativa privada são sem dúvida uma das principais causas
para essa mudança", afirma José Carlos Martins, vice-presidente da Câmara
Brasileira da Indústria da Construção. Mais confiantes, os empregados que
concluem o ensino básico e o profissionalizante querem evoluir
profissionalmente. Muitos se programam para dar o próximo passo e chegar ao
nível superior. "Temos um funcionário que se alfabetizou conosco e que
agora quer fazer faculdade", diz Renata Moraes, gerente da Racional.
"O filho dele se inspirou em seu exemplo e já está, inclusive, cursando
engenharia."
O levantamento do Ministério do Trabalho também mostra que a
participação de pessoas com o ensino médio completo, no setor de construção
civil, cresceu 38% nos últimos quatro anos. Os que cursaram ensino superior
representam 9% da força de trabalho desse setor.
fonte: Revista
IstoÉ Dinheiro - 18/09/2011

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